segunda-feira, 5 de novembro de 2012

BERTHA BECKER E O FUTURO DAS GEOTECNOLOGIAS


Por Gilberto Câmara

Bertha Becker é certamente uma das personalidades mais fascinantes da Geografia brasileira. Ao longo de seus anos de dedicação a pensar o Brasil, Bertha produziu alguns dos mais importantes estudos sobre nosso País, com a Amazônia como foco privilegiado. Conviver com Bertha é um destes privilégios que tornam a vida menos monótona, seja ao assistir suas agradáveis palestras ou tomando um bom uísque numa mesa de bar (single malt, por favor). É como ouvir um bom disco de Piazolla.  A vivacidade de seus argumentos desconcerta qualquer marmanjo que acha que, por saber definir um modelo de dados no SPRING, sabe também representar o mundo num computador.
Lembrei-me de Bertha imediatamente após ser convidado para proferir a palestra “O Que Esperar da Tecnologia GIS para a Próxima Década”, no Congresso GeoBrasil 2001. Pode parecer uma estranha associação, de vez que ela, apesar de entusiasta das geotecnologias, jamais irá converter arquivos SHP para MIF. Mas a leitura de Bertha é uma referência justamente por estar seu discurso além das atuais  capacidades das geotecnologias, e colocar em questão os instrumentos que utilizamos.
Explico melhor: como um aprendiz de pitonisa como eu pode sequer começar  a pensar como serão as geotecnologias daqui a dez anos? Uma possível abordagem é considerar a idéia de  limites: Até aonde podem ir as geotecnologias? Qual será  o conceito de GIS daqui a 10 anos? Quais os limites conceituais, tecnológicos, organizacionais e científicos para a evolução das geotecnologias?
Comecemos pelos limites conceituais: aonde acabam e começam as geotecnologias? Até 5 anos atrás, respondiamos de forma simplória: os GIS representam mapas em computadores. Esta visão está sendo ampliada, a partir dos conceitos-chave de localização e distribuição. A idéia de  localização  é associar uma referência espaçotemporal às entidades do mundo real, e fazer inferências com base no posicionamento
relativo dos objetos (“o carro quebrou no quilômetro 20,5 da via Dutra”). O conceito de distribuição denota a idéia de uma superfície contínua que modela a evolução de um fenômeno,  como a poluição num lago ou a mortalidade por homicídios em São Paulo, como visto na Figura 1.
Isto nos leva às novas tecnologias de software e hardware, cuja evolução nos permitirá estar conectados e localizáveis sempre (espero que sob nosso controle pessoal). A inclusão de aparelhos GPS em telefones celulares é apenas o primeiro passo na direção do que Max Egenhofer chama “Spatial Information Appliances” (vejam mais em  www.dpi.inpe.br/geoinfo99/program.html). Minha favorita é uma “varinha de condão” que informe automaticamente onde estamos e o caminho  a seguir para chegar no Sambódromo sem passar pela favela de Vigário Geral.
Outro avanço significativo é o uso de sistemas gerenciadores de bancos de dados para armazenar e recuperar tanto as geometrias quanto os atributos de dados espaciais. Estes avanços permitirão que o dado geográfico passe a fazer parte do cerne de informações da empresa, e que não seja mais gerenciado em separado. O caminho natural desta evolução é o aparecimento de sistemas muito diferentes do que hoje entendemos como GIS: não mais sistemas monolíticos de propósito geral, mas aplicativos desenvolvidos a partir de componentes flexíveis, baseados em tecnologias abertas.
Deste modo, a superação das barreiras conceituais, tecnológicas e organizacionais que mantém os GIS como sistemas isolados irá ampliar sobremaneira o impacto das geotecnologias, ao integrar a geoinformação na gestão diária de nossas empresas públicas e privadas.

E aqui voltamos a nossa Bertha, para considerar os limites mais desafiadores: nossa capacidade de representar o mundo no computador e prever a evolução espaçotemporal dos fenômenos. Por exemplo, em seus estudos sobre a Amazônia, ela nos ensina que o processo de ocupação territorial da região é um resultado de dois componentes: ações baseadas numa visão externa ao território, implementadas através de redes (rios, estradas, transporte aéreo e fluxos de capital); e ações baseadas numa visão interna do  território, e privilegiando o desenvolvimento local  e representáveis por uma geometria de áreas. Aqui o desafio para as geotecnologias fica mais evidente: como capturar e representar computacionalmente a interação dinâmica entre o “espaço das redes” e o “espaço dos lugares”? Como traduzir de forma quantitativa o comportamento dos atores públicos e privados em suas estratégias de apropriação do território?
Aí temos o maior desafio da Ciência da Geoinformação para as próximas décadas: a disponibilidade de  modelos preditivos de fenômenos espaço-temporais.  Este desafio não será fácil de ser vencido. Em seu instigante livro “Impossibility: The Limits of Science and The Science of Limits”, o astrônomo inglês John Barrow propõe uma análise de nossa capacidade de explicar diferentes fenômenos da natureza, considerados em função de sua complexidade e da incerteza sobre as equações matemáticas que os governam. Como mostra a Figura 2, os sistemas sociais  e econômicos estão entre os mais complexos de prognosticar, e estão além do estágio atual do conhecimento.
Bertha, você pode ficar tranquila: ainda estamos longe de poder capturar toda  a riqueza das ações políticas e sociais sobre o território, e temos um longo processo de pesquisa científica, antes de chegar a resultados aceitáveis. Seus estudos seguirão sendo referências imprescindíveis por muito tempo ainda. A respeito, veja-se ainda o artigo “Representações Computacionais do Espaço: Um Diálogo entre a Geografia e a Ciência da Geoinformação”, disponivel em www.dpi.inpe.br/gilberto/palestras.html). 









Sobre a geopolítica e a ciência na Amazônia

Entrevista com Bertha Koiffmann Becker 8/6/09

A importância dos estudos de Bertha Koiffmann Becker para o entendimento da geopolítica brasileira e, em particular, da Amazônia pode ser expressa por sua extensa obra científica, em que discute  desenvolvimento regional sustentável, fronteiras, biodiversidade e geografia política. Neste volume dos CHC, dedicado à Amazônia, seu nome como depoente da história de transformações ocorridas na Amazônia brasileira nos fornece uma compreensão da dinâmica regional, pontuada pelo conceito de fronteira enquanto espaço não plenamente estruturado e, por isto mesmo, potencialmente gerador de realidades novas.
A profa. Bertha Becker graduou-se em Geografia e História pela Universidade do Brasil (UFRJ) em 1952; fez doutorado e livre docência em Geografia (UFRJ) em 1970 sobre desenvolvimento rural no norte do Espírito Santo e pós-doutorado no Massachusetts Institute of Technology sobre estudos urbanos e planejamento. Aposentou-se em 2000 e atualmente é professora emérita da UFRJ e coordenadora do Laboratório de Gestão do Território – LAGET/UFRJ.
Desde 1970 desenvolve projetos sobre a geopolítica da Amazônia, com objetivo de identificar estratégias governamentais, processos e atores responsáveis pela ocupação e povoamento da Amazônia. Ao mesmo tempo em que identifica conflitos e mudanças estruturais ocorridas na região, sugere formas de uso do patrimônio natural capazes de favorecer a inclusão social e a soberania brasileira na Amazônia. Esta entrevista foi concedida em outubro de 2008, em sua residência no Rio de Janeiro, aos pesquisadores Nelson Ibañez (Laboratório de História da Ciência do Instituto Butantan) e Pablo Ibañez (Departamento de Geografia Política da USP).

Fale-nos um pouco de sua família e das influências nos seus primeiros momentos da vida. 
Sou carioca da gema, nascida na Tijuca. Mas meus pais eram europeus, minha mãe da Ucrânia e o meu pai da Romênia. Casaram-se no Brasil. Eu acho que herdei deles a idéia da fronteira, porque eles vieram da Europa Oriental para a América. Fazer a América era a grande meta dos imigrantes, não é? Era realmente uma fronteira, uma fronteira no sentido de oportunidades, coisas novas. Meu pai veio em 1914, antes da Primeira Guerra Mundial. Ele pressentiu que vinha guerra e escapuliu. Combinou com uns amigos, pegaram um navio e vieram embora. E a minha mãe veio em 1918, depois da Primeira Guerra, época em que a Rússia e Ucrânia estavam totalmente conturbadas. Meu avô já tinha saído de lá e ela trouxe o resto da família para encontrá-lo.
Essa coisa da busca pela coisa nova, pelo desconhecido, pelas oportunidades me marcou muito porque eu sempre quis estudar a fronteira no Brasil: a fronteira em movimento, a expansão da fronteira demográfica e agropecuária. Eu não comecei só estudando Amazônia, comecei estudando o Sudeste brasileiro e descobri a expansão da pecuária sobre áreas de mata.

E por que a Geografia? Quando a senhora se formou em 1952, já existia clima no Brasil para se discutir a Geografia?
Por que a Geografia? Pela fronteira. Para conhecer o mundo, viajar e ver as coisas novas. Conhecer o planeta...
Quando eu me formei, existia Delgado de Carvalho na geopolítica,  embora todo mundo discriminasse a geopolítica por causa do nazismo que, no Brasil, tinha alguns adeptos. Delgado de Carvalho havia feito um estudo sobre geografia política. Era uma época também de implantação nas universidades dos cursos de Geografia e História, inclusive com professores franceses que vieram e deram um impulso muito grande. O  Pierre Monbeig em São Paulo foi fundamental. No Rio foi o Francis Ruellan, que nos levava para o campo, e o Pierre Deffountaines, que ficou um pouco aqui e um pouco lá. Havia, portanto, um clima. Ademais, e fundamental, processava-se a afirmação do Estado brasileiro.
Ah, mas eu já ia esquecendo o mais importante, que é a criação do Instituto Brasileiro de Geografia em 1938. A idéia de criar um Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE] estava ligada justamente ao fortalecimento do Estado. Temos que situar isso assim: o Estado brasileiro tinha sido Império até não muito tempo atrás. Formaram a República. E o fortalecimento do Estado brasileiro implicava necessariamente no conhecimento do território. Como é que se vai fortalecer um Estado se há controle sobre a base territorial? Então, na minha cabeça, a criação do IBGE está ligada indiscutivelmente ao fortalecimento do Estado  brasileiro, não é verdade? Falava-se em mudar a capital federal do Rio para Brasília, expedições ao Planalto Central, o controle da Amazônia – primeiro, aliás, o projeto Rondon, a Fundação Brasil Central, depois a SPVEA – Superintendência de Valorização da Amazônia.
A idéia de controle do território começa a se consolidar relacionada ao fortalecimento do Estado. A preocupação territorial foi constante, mas antes foi necessário definir suas fronteiras, com Barão do Rio Branco. Agora não, agora existe um Estado que quer consolidar o controle sobre o seu território. Então o conhecimento do território é importante e eu acho que a criação do IBGE é crucial, assim como a criação dos cursos de Geografia e História nas universidades. Isso também pesou na minha trajetória. E eu tinha essa coisa da fronteira – essa foi uma herança dos meus pais, de buscar a América. E eu busquei a Amazônia.
Mas antes de estudar a Amazônia eu já havia estudado a fronteira no Sudeste. E é muito interessante porque o Brasil sempre foi um país em que a pecuária sempre foi importante, mas a pecuária se fazia em área de campo – na caatinga, no cerrado e na campanha gaúcha. Quando eu comecei a estudar a pecuária no Sudeste brasileiro, havia problemas com a alimentação no estado do Rio de Janeiro, o abastecimento. Eu cheguei até a pecuária e comecei a ver que estava havendo uma inversão total, que era a valorização das terras de mata para fazer pastagem, exatamente o oposto do que tinha acontecido historicamente até então – pecuária no campo e agricultura na mata. Naquele momento não, tirava-se a mata para colocar pastagem. Isso em São Paulo, Minas Gerais.
Eu sempre fiz pesquisa de campo, é uma coisa que tem que ficar clara e registrada. Teoria é fundamental, mas a pesquisa de campo tem que testar a teoria, tem que modificá-la – porque eu tenho que dizer se ela é válida. Inclusive na Amazônia, o campo é crucial, porque a dinâmica é muito forte, muito acelerada. É a  fronteira em movimento – você chega dois anos depois não é mais fronteira, é uma cidade que se  estabeleceu. Então tem que ir para o campo. Se você ficar aqui só especulando não vai acompanhar os processos que estão ocorrendo lá.

Há uma discussão nas Ciências Humanas de que nós estamos sempre a reboque da cultura européia e que não existe um movimento nacional. Do ponto de vista da Geografia brasileira, da História e das Ciências Humanas, que figuras nesse momento vão influenciar esse tipo de  pensamento no Brasil?
Bom, eu era aluna de Josué de Castro. Era uma grande figura, assim como Arthur Ramos. E tive também alguns professores de história interessantes, embora a maioria fosse horrorosa, como Eremildo Viana. Ele era um dedo duro terrível! Então esses professores marcaram. Fui aluna também do Hilgard Sternberg, que depois foi para Berkeley e está lá até hoje. Esses eram professores.
Em termos de formar cabeça, mais do que o Celso Furtado, o que mais me influenciou foi Caio Prado Junior. A Formação do Brasil Contemporâneo foi um livro que mexeu com as minhas entranhas, porque ele
tem uma visão extremamente abrangente, histórica. Ele começa dizendo: “O sentido da colonização...” Isso é básico, não é não? Ele tinha uma sensibilidade! O sentido da colonização é o que marcou esse país todo, digase de passagem. Então para mim foi a obra que marcou o embasamento do meu conhecimento sobre o Brasil.
Quando eu estudei, o curso de Geografia e História na época era um só e, na verdade, aprendi muito pouco, sabe? A universidade era toda complicada. Aí o Hilgard me convidou para ser auxiliar de ensino,  instrutora – qualquer coisa desse tipo. Ele me atribuía curso para dar e eu tive que me virar! Eu estudei muito! Por um lado era uma coisa de doido, colocar uma recém-saída da universidade para dar cursos, mas por outro lado, foi muito bom pra mim. Mandava dar cursos de tudo: litoral do Brasil, relevo do Brasil, vegetação do Brasil, população no Brasil. Tive inclusive que estudar geologia, relevo. Eu ficava arrancando os cabelos, mas foi muito importante ter essa visão, porque andei por todas as disciplinas para preparar as aulas. Dava aula no curso de História, Jornalismo, etc.
Ele mandava a gente fazer tudo, sabe? Como tive que estudar muito, fui recorrer às bases efetivamente: Caio Prado, Celso Furtado. Aí é que eu fui ensinar mesmo. Depois fui ensinar no Instituto Rio Branco, então li o Golbery. Foi aí que descobri a geopolítica.
Um belo dia me telefonam do Rio Branco – porque o meu catedrático, o Hilgard, tinha sido professor lá – dizendo que o Arthur Wiss havia falecido. Lembra daqueles irmãos? Eram dois crânios, e um deles teve um aneurisma cerebral e foi-se assim: poft! Ligaram para a Universidade para saber se alguém estava disposto a assumir aquela disciplina, Geografia. E eu resolvi assumir em 1966. Fiquei 10 anos, até 1976, em pleno período de ditadura militar.
Aceitei porque estava precisando de dinheiro – vou dizer a verdade – para ter uma “grana” extra. Quando cheguei, o diretor era o embaixador Camilo de Oliveira que ficou muito pouco tempo, já estava se aposentando. Depois dele veio o embaixador Antonio Correia do Lago, uma grande figura! Quis colocar ordem e inovar no Instituto.
Bom, cheguei e vi o programa de Geografia que o Arthur dava, e não tinha o menor cabimento! Era dava um programa de Geografia assim: plantation, sistemas asiáticos – sistemas agrícolas que os meninos estudavam no ginásio. Para quem ia ser diplomata isso devia enjoar. Pensei: “Tenho que descobrir alguma coisa especial para quem vai ser diplomata.”  Procurei e achei a Geopolítica, as teorias do Mackinder. Ninguém falava nisso aqui no Brasil, depois da II Guerra Mundial. Aí fui estudar, fui ler...

Então a recuperação da geopolítica foi objetivada pela entrada no Itamaraty?
Ah, foi. Porque achei que tinha que descobrir um rumo, uma linha de ensino que fosse útil para quem ia ser diplomata. Eu não podia ficar repetindo os programas da universidade sobre a agricultura. Os alunos adoravam! Resgatei as teorias geopolíticas, utilizei John Friedman, um grande nome, que inclusive fez um livro sobre a Venezuela, Guiana, a fronteira de recursos. Eu dava curso de Geopolítica e América Latina, que eram coisas úteis para eles. Eles gostaram muito. Tanto que, quando o Itamaraty mudou para Brasília, eles fizeram uma enquete entre os alunos para saber que disciplinas, deveriam constar do curso e Geografia ganhou em primeiro lugar. Eu fiquei feliz porque eu suei para montar esse programa. E no começo eles tinham dificuldade, não conseguiam achar professor lá em Brasília para dar aquela disciplina, mas depois, evidentemente, devem ter encontrado.

Então a senhora é acadêmica pura, voltada unicamente para a Universidade?
Isso. Dava aula e realizava pesquisa. Durante a maior parte, quase que a totalidade da minha vida eu apenas ensinei e fiz pesquisa. Tinha montes de bolsistas de Iniciação Científica do CNPq. O CNPq foi vital para mim – dava-me bolsa, dinheiro para viajar com os meninos. Eu levava todo mundo para a Amazônia. Levava professores. Isso foi muito importante. Eu consegui, digamos, fazer uma escola. Tem gente que segue hoje e que já é professor, doutor, já é altamente independente, mas que, na verdade, foi treinado por mim. Quase que a metade do Departamento de Geografia Humana passou por mim.

Nessa década de 1950 e 60, o CNPq estava preocupado com o desenvolvimento nacional e estimulou muito determinadas pesquisas, mas as Ciências Sociais ficaram para trás. Como a senhora angariou apoio para a Geografia?
O Almirante Álvaro Alberto quis criar o CNPq como coisa muito maior – ligada à pesquisa atômica. A idéia era essa. Mas foi o meu catedrático, o Hilgard Sternberg, que tinha me convidado para ser auxiliar de ensino, que conseguiu um espaço no CNPq para fazer Geografia e bolsas. Ele tinha muitos relacionamentos. Depois eu organizei projetos sobre abastecimento, pecuária, e fui pedindo ao CNPq até que angariei o meu próprio espaço inclusive na FINEP.
O Hilgard Sternberg criou um Centro de Pesquisas de Geografia do Brasil, na universidade, na década de 1950. Conseguiu uma caminhonete com a Fundação Ford, bolsas com o CNPq, e dinheiro para montar o Centro. Tinha um espaço no terraço da Casa de Itália: um espaço enorme, coberto, que era o nosso Centro de Pesquisas de Geografia do Brasil. E eu trabalhava no Centro. Ele nos mandava fazer resumos, fichas de  livros – livro tal, tantas páginas. Eu não faço isso com os meus alunos não! Só às vezes eu mando fazerem uns trabalhos enjoados que eu preciso.
Mas então era assim: ele tinha conseguido um grande território geográfico, quase que uma instituição. Eu segui o mestre e me ‘independizei’. Depois nós chegamos até a brigar, porque ele queria continuar andando em mim e não dava! Mas depois ficamos de bem.

Então houve abertura para criação de uma linha [de pesquisa] no CNPq para a área de Geografia?
Eu acho que ele merece essa honra de ter conseguido o Centro de Pesquisas de Geografia do Brasil, que  perdurou durante muito tempo. Ele foi embora para os Estados Unidos e o Centro continuou; acabou e se transformou no Programa de Pós-Graduação em Geografia que nós montamos na UFRJ. Depois criei um Laboratório de Gestão do Território – uma coisa muito menor, sem aparatos institucionais, mas que tem duas linhas, que agrega professores e colegas do IBGE. Não é um instituto, um centro de pesquisa – é um laboratório mais moderno de gestão do território.

Como era a relação Rio - São Paulo? Havia relação entre os cientistas? Como eram os encontros, os congressos dessa época?
A Geografia era o IBGE e as universidades – São Paulo e Rio de Janeiro. Houve um acontecimento muito importante em 1956: o Hilgard organizou no Rio de Janeiro o Congresso Internacional de Geografia. A União Geográfica Internacional já existia desde o final do século XIX. Mas ele organizou uma reunião Internacional no Brasil. Foi uma coisa de uma importância que eu não posso explicar! Os geógrafos foram mobilizados, todo mundo se deu bem – formaram comitês especializados nisso e naquilo – com gente da USP, do Rio de Janeiro, do IBGE. Houve uma grande solidariedade e foram elaborados seis livros de excursões geográficas pelo Brasil que eram objeto de pesquisa; até hoje são obras primas que deveriam ser reproduzidas.
O professor Ari França, da USP, escreveu sobre a expansão do café no Vale do Paraíba; o Aziz Ab’Sáber sobre não sei o quê, Lísia Bernardes, Nilo Bernardes... Eram grandes geógrafos na época. Eu era fichinha
ainda. Fui presidente da Comissão de Recepção, mas eu participei, ajudei – lembro disso muito bem. Foi uma confraternização fantástica. Imagina, vieram russos para cá! Gente do mundo inteiro. Depois das reuniões no Rio, os geógrafos se dividiram e cada um fez uma excursão pelo país de acordo com os seus interesses. Os livros de excursão para essas regiões são maravilhas. Há, inclusive, um sobre a Amazônia. Deveriam ser desenterrados e reeditados como história da Geografia no Brasil. É uma beleza. Então isso também foi importante para mim, eu tinha acabado de me formar... Inclusive eu me liguei à Geografia internacional para o resto da minha vida. Recentemente é que eu saí. Eu fui vice-presidente da União
Geográfica Internacional (UGI).
Fui a muitos congressos. Fui para a Índia com a maior cara-de-pau! Peguei um avião aqui e fui – mas o embaixador do Itamaraty me ajudou, me deu a passagem. Fui para uma Comissão sobre Regional Development and Policy. Depois eu fiz parte dessa comissão que então foi organizada por Brian Berry. Depois cheguei a vice-presidente da UGI, mas fiquei só um mandato de 4 anos, embora tivesse direito à reeleição, mas achei horrorosa a ‘políticália’! Não é a política, é a politicagem. Fiquei com pena, porque viajava a beça! Estive na Coréia, na Rússia... Mas caí fora! Inclusive porque sempre fui muito preocupada com a Amazônia.
Voltando à geopolítica...
Então, naquela época ninguém estava querendo falar muito em geopolítica não, porque com a II Guerra, com o negócio do nazismo, a geopolítica ficou feia! Ficou suja. Mas eu, como tinha que encontrar alguma
coisa que servisse para diplomata, disse: “Paciência!” Entrei nessa e amei! Amei porque eu acho que a geografia é uma ciência política. A geografia é uma ciência política! Não se pode lidar com o território, com o espaço geográfico, só do ponto de vista social; o espaço é político, por excelência, assim como e o território, não é?
Adorei o que eu mesma descobri, fui estudando e nunca mais deixei nem a geopolítica, nem a Amazônia. Bom, eu fui juntando. Eu fiz a geopolítica e tinha muito pouco material para a gente estudar – pouco material não só no Brasil, como no mundo. Ninguém queria falar muito sobre geopolítica.

Seu texto clássico - O Resgate - o mais lido e recorrente, é de 1988, não?
É, talvez seja esse sim. Mas tenho outro texto grande que eu fiz para um livro. Eu fui muito boba, nunca redigi os cursos que dei durante anos, e aí muita gente vinha e passava a mão. Foi um grande erro. Mas não  dá para fazer tudo, não é? Há coisas que eu tenho que juntar para fazer um livro mais conceitual sobre a geopolítica. Mas é que não dá para deixar de pensar e pesquisar a Amazônia. A Amazônia é a própria geopolítica. É a própria questão.

Como foi seu encontro com o Golbery, que era tido como um papa da geopolítica, e com os militares de maneira geral?
A geopolítica deles estava muito ultrapassada, pra lhe dizer a verdade. E eu não tinha muito material. Tinha  que inventar, estudar e montar tudo. Há um outro artigo mais pesado sobre a geopolítica num livro e outro sobre gestão de território, que já é uma geopolítica mais moderna. E muita coisa que eu trago da geopolítica da Amazônia. Existe um artigo interessante, entitulado Brasil – Tordesilhas, ano 2000, que é pura geopolítica.

A senhora viajou pelo país na década de 1970?
Em 1970 eu estava na Universidade e no Itamaraty. Eu vivia dizendo para o Embaixador, qualquer que fosse ele, que tinha que levar os meninos para conhecer o Brasil, antes que eles representassem o Brasil no exterior. O embaixador então resolveu fazer um grande projeto de visita às fronteiras da Amazônia, por insistência minha. Foi uma loucura! Eram 70 alunos. Foi chamado Projeto Cisne. Era um projeto que contou com avião da FAB, uma representante do Itamaraty, o piloto do FAB evidentemente, o projeto Rondon que estava “enfiado” também, e a professora de Geografia aqui.
Eu tinha preparado os meninos com um questionário baseado na teoria centro-periferia, com visão geopolítica. Quando eu vi aquele projeto Rondon do lado, fiquei danada da vida! Mas o que eu podia fazer? Eu não mandava, quem mandava eram eles. O projeto Rondon tinha aquele tom um pouco faccioso, sabe? Não era muito livre não – vamos dizer aqui a verdade. Mas, de qualquer maneira tivemos que ir, e lá fomos nós! Os alunos me chamavam da “Tigresa de Haifa”, porque judia e muito brava nos exames vestibulares que eles faziam para entrar no Itamaraty, e lá dentro também. Quando chegamos nas fronteiras do Mato Grosso, onde éramos recebidos pelo Exército, pela Marinha – ficávamos alojados nas sedes deles –, os alunos brincaram comigo e disseram que eu virei a jaguatirica de Ponta Porã. De Tigresa de Haifa para jaguatirica...
Então essa ida para a Amazônia com os alunos foi muito importante. Foi importantíssima... Primeiro para os alunos, porque eram realmente todos de elite, das capitais – ninguém conhecia mesmo muita coisa do
Brasil. E a mudança do país, de 1970 para cá, foi uma coisa brutal.
E para mim foi importante porque eu entrei e nunca mais saí da pesquisa na Amazônia. Foi a gota d’água porque eu já estava estudando a expansão da pecuária no Sudeste derrubando mata, plantando pasto. Encontrei os mineiros e paulistas que derrubavam mata no Crixás, em Goiás. Eles me convidando para ir de aviãozinho particular lá para ver... Eu quase fui. Ia para o Triângulo Mineiro, para o oeste de São Paulo; eu ia entrevistar todo mundo. Encontrei com essa turma toda e eles estavam derrubando mata em Goiás justamente para plantar capim e criar gado. Era a fronteira em movimento, a própria. Quando eu cheguei em Cáceres com os alunos do Rio Branco em 1972, tive grande surpresa. Cáceres já estava inchada, o impacto do povoamento, da migração já estava ali.
De Cáceres fomos para Guajará-Mirim, brasileira e boliviana. Fomos a Rio Branco, Cruzeiro do Sul que, na época, era cheia de leprosos. Todo mundo ficou com medo de ir. Tinha um campus do Projeto Rondon lá. Depois passamos no Forte Príncipe da Beira – uma coisa belíssima, uma coisa espetacular, no Vale do Guaporé. Corumbá, Cáceres, Guajará-Mirim - nacional e boliviana, depois Rio Branco, Cruzeiro do Sul, Manaus e acabamos em Brasília. Eu dizia que devia levar os meninos para conhecer o país, mas a professora é que virou a Jaguatirica de Ponta Porá.
Ficaram embasbacados com a Amazônia. Os habitantes não ouviam a Rádio Nacional, sabia disso? Eles ouviam a voz da América e a Voz da Sobre a geopolítica e a ciência na Amazônia Rússia ou de Cuba. Não se ouvia emissoras de rádio brasileira nessas fronteiras do Brasil. Isso em 1970, você acredita nisso? É incrível, não é? Realmente era muito afastado do centro de comando nacional.

Que impacto a Amazônia sofria com as ações da Sudam?
Foi o Programa de Integração Nacional, pelo regime militar, e foi horrível no sentido do autoritarismo, da perseguição. Eu conheço bem, mas houve desenvolvimento também, como nas telecomunicações que
mudou completamente a Amazônia. E eu nunca mais deixei a região. Um ou dois anos depois, o pessoal da Engenharia da UFRJ daquele grande professor Coimbra que depois foi perseguido, resolveu percorrer a Belém- Brasília e me convidaram para participar. Percorremos toda a Belém-Brasília. Fantástico!
E então eu comecei a fazer projetos de pesquisa no CNPq e na FINEP sobre a Amazônia, e formar os meninos: os de iniciação científica, os professores que eu carregava... Eu pedia apoio ao Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, tanto no Rio como lá de Belém, e eles me davam caminhonete, motorista, gasolina – olha só – e as casas dos engenheiros para dormir, no meio das estradas, porque eu andava no meio da estrada mesmo. Foi uma metodologia própria. Era o que a gente fazia. Como é que eu ia fazer? Ia dormir no meio do mato, na estrada? Não dava. Naquela época ainda se podia viajar de noite pelas estradas, não havia o perigo que tem hoje.
De início pesquisamos muito o norte de Goiás, que depois virou o estado de Tocantins. Araguaína, Imperatriz – ali foi o “quente” da Belém- Brasília, não é? Depois eu fui ao Mato Grosso ver a colonização privada. Depois ao Acre, Amazonas... Dessa forma conheci muita coisa da Amazônia. Claro que eu não conheço tudo, porque ninguém conhece tudo, mas eu conheço muita coisa. Às vezes os regionalistas amazônidas ficam danados; muitos não gostam do pessoal do Sul, os sulistas. “Nós é que conhecemos a Amazônia”, dizem, mas na verdade conhecem seus respectivos estados, enquanto nós pesquisamos vários deles.
Essa foi a primeira expedição para a Amazônia. Fiz muitas expedições quando era aluna mas não à  Amazônia. O Ruellan me levava para lá e para cá, mas não assim. Nessa eu fui coordenando a minha parte – e era grande, visitamos a fronteira. Foi uma coisa de muito maior peso, e que veio a calhar com o curso que eu tinha inventado para os diplomatas. Então foi o maior barato! Foi o máximo.

Depois, em 1990, a senhora também começou a fazer mais consultorias
para o governo?
Até essa época era só pesquisa e ensino. Quando é que eu comecei? Fui convidada ou indicada para fazer parte do Grupo de Aconselhamento do PPG7: Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais Brasileiras, e isso foi justamente na virada da década de 1990. O Programa foi implantado em 1993, mas efetivamente só começou a funcionar em 1995. Mas, desde 1993 eu entrei no grupo onde permaneci por 10 anos.
Isso me levou a Brasília, a ter contato com o Banco Mundial, e com as guerrinhas entre o Ministério do Meio Ambiente e o Banco. Eram violentas. A gente guerreava mesmo, o tempo todo. Lá na Amazônia todo mundo já me conhecia, porque eu fazia pesquisa, e aí começaram a me conhecer em Brasília, por causa do PPG7, que era um programa extremamente importante na ocasião. Era muito importante porque trazia dinheiro. Mas não só dinheiro... Trazia toda a ideologia da mudança para o ambientalismo. Não foi brincadeira essa mudança.

Muitos criticam o papel dessas agências pela interferência nas políticas públicas nacionais, através do financiamento. Nesses conflitos como é que a senhora viu o papel das agências internacionais?
Io no creo en bruxas, pero que las ai, las ai. Primeiro a gente não deve colocar todo mundo no mesmo saco, mas eu vejo que as agências têm um papel geopolítico importante, elas são um braço geopolítico de algumas potências. Não adianta dizer que é todo mundo bonzinho porque não é. Fazem o jogo das potências. A quantidade de agências da Alemanha... Foi imensa a ajuda que a Alemanha deu ao Brasil com KFW e a GTZ.
Porque eu digo que elas têm um papel geopolítico? Porque essas agências sempre têm subjacentes uma postura anti-Estado brasileiro. Vamos botar o dedo na ferida. Não é essa a questão? Sempre o Estado não presta, o Estado é um fracasso. Essa é a mensagem, esse é o discurso – então precisa das agências, precisa do estrangeiro porque o Estado é incapaz. Para mim, isso é geopolítica. Então eu acho que elas têm um papel geopolítico; umas têm mais, outras têm menos, assim como as ONGs – algumas têm uma preocupação social maior, enquanto outras são francamente preocupadas com a geopolítica, inclusive com a coisa do Brasil não se desenvolver, o Amazonas se transformar em museu, imobilizar os recursos... Foi uma pressão muito violenta durante uns 10 anos até hoje ainda é, mas na década de 90 foi muito maior.

E a senhora trabalhou com projetos vinculados ao Ministério do Meio Ambiente?
Inicialmente sim, porque o Ministério do Meio Ambiente era o lado brasileiro da questão. Por isso que eu disse que havia guerras incríveis. Naquela época não era a Ministra Marina Silva; o Secretario de Coordenação da Amazônia era o Dr. Seixas Lorenzo. Ele não era tão ambientalista feito a Marina. Porque eu também não sou. Tenho muito respeito por ela, não quero que se destrua a Amazônia, mas também não quero que ela seja imobilizada, que vire museu. Eu sempre escrevi contra isso, confesso a vocês que tinha medo de falar a esse respeito no início. Naquela época o fervor ambientalista era tão grande que eu tinha medo que jogassem pedras em mim.
Mas estava claro que se propunha um padrão de não uso da natureza, que muitos queriam que permanecesse imobilizada porque estavam desenvolvendo tecnologias lá, para utilizar os recursos daqui num novo patamar. Ora, que graça! E eu estava certa porque agora está todo mundo querendo utilizar os recursos. Foram reservas de valor. O que eu dizia naquela época: reserva de valor para uso futuro. O que  está acontecendo hoje? Água, biodiversidade, carbono, as funções do ecossistema... Muito mais até do que eu pensei, porque eu falei na água e na biodiversidade. Secularmente, o homem explora a estrutura dos ecossistemas, estrutura que é resultado da interação de elementos bióticos e abióticos – bichos, vegetais, pedras; essa interação é a estrutura. Há séculos, desde a Antiguidade, a gente explora isso: o ouro, a água, o solo, a floresta, a madeira. Hoje, nós estamos explorando as funções dos ecossistemas.
Há um avanço na mercantilização da natureza. Os serviços ambientais vêm das funções dos ecossistemas, não mais da estrutura. Por isso é que a economia tem dificuldade de atribuir valor e preço a essas funções, que nunca pertenceram à esfera econômica. Mas de qualquer maneira o mercado está de vento em popa em Chicago, União Européia e Ásia. Eu estou propondo que a gente crie uma Bolsa de Valores em Manaus, uma Bolsa de Valores em serviços ambientais. O Brasil deve tratar de estudar esse negócio, aproveitar os serviços ambientais múltiplos que a natureza nos deu, e criar uma Bolsa aqui, não deixar essa evasão toda para lá.

A senhora começou no Meio Ambiente porém hoje não está mais. Por que?
Eu comecei no Meio Ambiente porque naquele momento a guerra era para tentar moderar o ambientalismo dentro do Ministério. O Brasil criou o Ministério do Meio Ambiente em resposta à pressão internacional, porque havia forte ingerência a companhando esse Programa Piloto. Esse processo coincidiu com a crise do Estado brasileiro – crise econômica, política, financeira – cujo projeto militar de integração nacional se esgotou com os choques do petróleo. Em resposta à enorme pressão internacional, o Brasil criou o Ministério do Meio Ambiente. Para ter interlocução, senão teria que se submeter a tudo o que se queria impor. Eu trabalhei nessa época com o Ministério do Meio Ambiente, no PP-G7, justamente tentando dosar a ideologia ambientalista. A pressão externa por vezes era pouco ética, por exemplo, usando dois pesos e duas medidas para fazer estudos. Para os americanos deixavam tudo, para nós os temas tinham que ser submetidos a análise, seleção e orçamento. Eles tinham um monte de dinheiro, destinado à ciência e tecnologia, mas depois não queriam dar mais. O nome parece demais, mas não é, eram guerras, guerras diárias.
Houve uma coisa maravilhosa esse período: uma vez por ano íamos visitar os projetos. Para mim foi maravilhoso porque eu não deixei de ir para campo, ia menos com professores e alunos, mas ia com meu grupo do PPG7. Mas à medida que a pressão ambientalista foi se tornando mais forte, possessiva e dura, eu saí, porque não sou ambientalista. Não tinha cabimento. Eu acho que não se pode destruir a natureza, mas não é fazendo ela ficar imobilizada que você vai resolver o problema.

Até porque ela não fica imobilizada e quanto mais se enrijece, mais caminhos alternativos vão sendo construídos. 
Exatamente! É o que está acontecendo agora. Dizem que se vão proteger a natureza, mas a estão destruindo. É necessário produzir para conservar, é a minha posição agora, através de uma ciência e tecnologia adequada, capaz de utilizar os recursos sem destruí-los.

A senhora está agora na Secretaria de Assuntos Estratégicos?
Pois é... Fiquei ajudando o Ministério da Integração. Trabalhei com o Antonio Carlos Galvão, participei do plano da Rodovia Cuiabá-Santarém, do Plano Amazônia Sustentável. Isso foi uma experiência incrível!
Participei pelo Ministério da Integração, mas foi a primeira vez que vi um trabalho conjunto. O Lula colocou a Mary Allegretti, que era Secretária de Coordenação da Amazônia substituindo o Seixas Lorenço, do lado do Ministério do Meio Ambiente; e do lado da integração a Tânia Bacelar, que era diretora de Desenvolvimento Regional. Depois ela saiu e ficou o Galvão. E eu era consultora do Ministério da Integração. Participei da confecção do PAS – Plano Amazônia Sustentável - foi um plano maravilhoso que ficou pronto no final de 2004. Até hoje ele é válido, mas ele foi todo metamorfosiado, esvaziado, e ficou cinco anos engavetado. Em abril 2008 foi tirado da gaveta e sua coordenação transferida para a Secretaria de Assuntos Estratégicos, sinalizando para o fato de que a questão da Amazônia não se resume ao meio-ambiente. Tenho uma proposta desenvolvimentista, mas sem destruir o meio ambiente. Ao contrário, o meio ambiente é um trunfo, uma riqueza que a gente tem: o capital natural.

A senhora se vinculou a algum movimento político?
Nunca fiz parte de partido nenhum. Eu acho que foi muito melhor assim, porque me deu liberdade de pensar. Fui para o Itamaraty, depois me envolvi com o Ministério do Meio Ambiente, da Integração e depois de Ciência e Tecnologia. Circulei em vários ministérios. Tenho um pensamento autônomo e independente; que é uma coisa que eu acho que falta no Brasil, reflexão para ter pensamento autônomo. Falta reflexão na universidade. Essa coisa de dar valor só a quantos artigos publicou por ano, a  preocupação com o quantitativo induz ao abandono da reflexão. Acho isso seríssimo no Brasil. Eu sou sempre da reflexão. Gosto mais da reflexão do que dos números; se tiver que largar um, eu largo os números.
E conhecer o Brasil é igualmente crucial. O fato de ir à Amazônia e ver o que acontece lá é fundamental. E também o fato de estar sempre em Brasília, conversando com fulano daqui e de lá, inclusive a ministra
Marina Silva que sempre me tratou com maior respeito. Não houve uma reunião pública em que eu estivesse presente, que ela não dissesse: “Contamos com a professora Bertha”, apesar de eu não ser ambientalista.
Isso eu prezo.
Eu ajudei muito no plano da Cuiabá-Santarém. Depois trabalhei na concepção da Política Nacional de Ordenamento do Território (PNOT) e, a seguir, na dimensão territorial do Plano Pluri Anual (PPA), numa consultoria ao Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), para o Antonio Carlos Galvão que é o diretor desse projeto, um projeto muito grande. Uma mobilização imensa de cientistas brasileiros porque a idéia era justamente acoplar ao PPA à dimensão territorial.

E a passagem para com o Ministro Mangabeira, da Secretaria Especial de Ações de Longo Prazo?
Um belo dia eu recebi um telefonema do assessor do Ministro Mangabeira dizendo que ele queria conversar comigo. Convidou-me para ir a Brasília e me disse que tinha lido as minhas coisas, queria saber se eu poderia e gostaria de colaborar com ele, coordenando um grupo de consultores.
Como ele gostou, leu e incorporou algumas idéias minhas e queria avançar nisso, eu fiquei muito feliz! Ora, o que um professor, um pesquisador quer na vida? Que as suas idéias sejam aceitas, não é? Aí eu aceitei. Tem muita gente que diz assim: “Você vai ficar ajudando o Mangabeira? Ele fica usando todas as coisas que você faz. O que ele está te dando?” Olha, é uma mentalidade tão boba, não acha? Eu estou muito feliz que ele use as idéias. Não é isso o que você quer? Você pensa, estuda, pesquisa a vida inteira para ser útil. Fizemos um trabalho grande, éramos cinco consultores. A Marilene Corrêa, que é reitora da Universidade Estadual
Sobre a geopolítica e a ciência na Amazônia do Amazonas, aceitou inicialmente mas depois saiu. E o Batista Vidal, que tinha uma posição muito extremada em relação à bioenergia, também saiu. Aí ficamos em três gatos pingados. Eu, coordenadora, o Francisco Assis Costa, da Universidade Federal do Pará, e o Wanderley Messias da Costa, da Geografia da USP. Pedimos uma série de notas técnicas, para suprir um pouco o nosso trabalho. Fizemos um seminário em Brasília para apresentar os resultados da pesquisa,  muitos deles bastante interessantes. Tanto que a Marilene comentou: “Esse estudo deixou o PAS no chinelo.
Está muito à frente.”
Além do estudo em si, fizemos muitos relatórios e viajamos várias vezes com o Ministro para a Amazônia. Agora acabamos, vamos ver. O ministro mandou me convidar para um seminário em Belém para discutir
o extrativismo e propor à SUDAM a implantação de pólos industriais articulados aos recursos naturais na região.
A senhora poderia voltar um pouco e falar sobre o seu pós-doutoramento?
Ah sim, foi na década de 1980. Eu trabalhei durante um tempo, não era propriamente como consultora, porque era um grupo de pesquisadores nas Nações Unidas, UNCRED – United Nations Centre For Regional Development – em Nagoia, no Japão. Eles juntaram um grupo de pesquisadores – um africano, uma sul-americana, uns periféricos, para fazer estudos sobre agricultura, sobre a dinâmica agrícola. E eu fiz sobre o Brasil, evidentemente – saiu publicado, aquele foi um bom estudo.
E nisso, acabei conhecendo gente do MIT, dentre as quais uma professora chamada Karen Polansky, importante lá. Ela gostou muito de mim e resolveu me convidar como visiting scholar. Eu não dava aula,
não era visiting professor. Era um pós-doc em que eu assistia cursos, participava dos debates, expunha temas também. Era mais um intercâmbio. Fui com a cara e a coragem, e fiquei lá três a quatro meses, no Department of Urban Studies and Planning. Para falar a verdade, eu não gostei. Porque a visão deles é colonialista. A grande preocupação era habitação para os pobres, mas eles tinham um discurso que não tocava no âmago da questão.
Na época, o que eu gostei foi de ter assistido a uns cursos em Harvard e fiquei, ao mesmo tempo, chocadíssima. Havia uns professores “cobras”, e só tinha aluno da China, do Paquistão. Era o momento em que estava começando o desmonte do Estado. Em meados de 1980. Os professores mostravam como as empresas estatais não vendiam nada, como eram mal administradas, e que haviam entrado pelo cano. Estavam fazendo a cabeça da turma... Aquilo me chocou tanto! Eu percebi na hora, porque burra também eu não sou. Era um trabalho de solapa. Ia a periferia para lá e eles então faziam a cabeça de todo mundo com o discurso do shelter for the poor (“abrigo para os pobres”), que não é o meu. Ninguém me contou, eu vi como é que se fazem as cabeças para destruir o Estado, como se faz geopolítica através da ciência e tecnologia.
Foi o desmonte do Estado e eu a única que ficava defendendo a Vale do Rio Doce, que na época ainda não era privada, e a Petrobrás. Mostrava que elas eram empresas estratégicas. Isso é geopolítica também. Não interessa até se não derem tanto lucro, mas elas têm que existir porque elas são patrimônio da nação. E dão lucro pra caramba!

Como é que a senhora definiria o conceito de desenvolvimento nacional nos dias de hoje? Houve mudanças?
Pois é... Primeiro promoveu-se o desmanche: o Estado mínimo. A retomada não foi tão forte. Quer dizer, em alguns lugares sim: Venezuela, Equador e Bolívia... Mas foi muito discreto em vários outros. A questão de retomar o Estado, não foi dizendo: “Agora o Estado vai de novo...”. Acho também que no Brasil houve uma significativa retomada do Estado. Li uma coisa muito interessante na Folha de São Paulo na semana passada, com a qual concordo: o Estado nunca saiu da cena, ele tem a dobradinha com a economia, menos ou mais visível, mas está sempre junto. Há momentos em que o Estado dá outro tipo de apoio e em outros, quando se necessita, ele entra totalmente, como agora nos Estados Unidos. O articulista até dizia: – Na verdade, nós vivemos um capitalismo de Estado ainda, só que com camuflagens.– Você vai e volta. Não sei se eu diria que ainda é um capitalismo de Estado, embora nos Estados Unidos todo mundo esteja falando isso. Estão todos correndo para o Tesouro Americano e comprar dólar para garantir seus recursos. Quer dizer, o Estado, por vezes meio encoberto, está ainda atuando na verdade.

Estamos um pouco mais pró-ativos mas estamos falando, claro, num mundo que está globalizado. Então quais seriam as alternativas? O desenvolvimento da ciência e tecnologia, da especificidade desse
movimento?
Já escrevi sobre isso também, embora não nesse momento de crise. Na verdade não se pode mudar a globalização, mas pode-se mudar a relação com ela. As decisões não são comandadas pelo mercado, não. Decisões políticas são decisões políticas; no fundo elas comandam o mundo e a própria globalização, que é muito poderosa. Tudo bem, você não pode fugir dela, sair do planeta porque ela está aí, mas pode ter com ela diferentes relações: de submissão ou de mais autonomia. É aquilo o que eu estava falando. Eu sou pela relação de mais autonomia.
Vai ser difícil não se inserir no processo de globalização. Passou o tempo em que era possível se fechar no mundo e partir para uma coisa autônoma, sozinho. O Brasil teve um período assim, meio fechado no processo de industrialização, mas nunca foi totalmente fechado porque dependia de empréstimos que vinham de fora. Mas hoje é mais difícil. Mas é possível ter formas diferenciadas de relação com esse processo. E aí eu sou pela autonomia. E como é essa autonomia? Nós temos recursos pra valer, mas nós temos também uma path dependency, isto é, uma trajetória histórica institucional autoritária e que beneficia os grandes interesses, resultando em intensa desigualdade social.
Nesse nosso trabalho da Amazônia, o Prof. Francisco Assis Costa mostrou quais são as trajetórias agrárias que estão ganhando na Amazônia: é a pecuária de corte. Ele teve a ousadia de medir, fazer as correlações
de tendências das atividades agrícolas com a densidade institucional, sobretudo o crédito e mostrou que a força da pecuária de corte está associada à da densidade institucional. Essa atividade tem todos os apoios do mundo: do crédito e político.
Creio que, com esses exemplos, estou dando uma visão muito clara do que penso. Você teria alternativa no Brasil? Mas é claro que teria! Muitas alternativas. O Brasil tem recursos, tem uma população criativa. Mas
falta educação, treinamento, capacitação. Não há habilidades porque a educação é uma educação generalista, européia. Isso tem que mudar! O ministro Mangabeira insiste muito nessa tecla junto com o ministro Haddad da Educação. O Brasil teria muitas alternativas. Agora, o problema é como romper o autoritarismo. O quadro institucional trabalha em favor dos grandes. É horrível o que eu estou falando, mas  acho que é verdade. Enquanto não se mudar essa situação vai ser difícil. Os movimentos sociais são muito importantes, mas só eles não resolvem.

Eles não têm capacidade institucional?
Não têm. Por isso eu tenho falado tanto em revolução científica, desde 2004, e agora muitos colegas incorporaram... Primeiro porque sou contra a idéia polarizada entre desenvolvimento ou preservação. Isso não existe! É preciso desenvolver com conservação, acabar com essa falsa dicotomia, porque é totalmente ideológica. Para utilizar os recursos sem destruir, há que se ter conhecimento e tecnologia. Segundo, a ciência e a tecnologia devem ajudar a fazer reflexão sobre a nossa situação e gerar um pensamento autônomo. Isso é fundamental para nós.
E hoje em dia acrescentei um terceiro argumento. Gosto muito do Karl Polanyi, autor do livro A Grande Transformação. Polanyi demonstrou que a passagem do processo de mercantilização para o industrialismo
se deu através da criação de mercadorias fictícias, mas que geraram mercados reais; mercado de mão-de-obra, que nunca foi feita para ser mercadoria; mercado de terras, terra que nunca foi feita para ser vendida
como mercadoria. E quem eram os sujeitos capazes de influir no mercado, para dosar o mercado? Ele aponta o Estado, as políticas públicas, movimentos sociais e sindicatos. Hoje parece que os sindicatos não têm força.
O ponto em que eu quero chegar é o seguinte: hoje a comunidade científica é um ator crucial com o mesmo papel que tinham os sindicatos na época da passagem para o industrialismo. Nós temos que esclarecer a
população e a sociedade e dar subsídios ao Estado, para fortalecê-lo na negociação com o mercado, para impedi-lo de dominar tudo. Faz sentido o que eu estou falando? É isso. A densidade institucional é toda em favor do capital, e do mais selvagem, digamos assim. Quem vai hoje lutar contra? Não são apenas os sindicatos. Nós temos que assumir esse papel! Vocês estão de acordo comigo? Nós temos que assumir esse papel crucial.
Por essa razão estou andando muito na mídia agora. Fiz dois artigos esse ano para o jornal, faço 500 entrevistas, vou para mesa redonda, vem o Globo Repórter. Não é o que eu queria não, mas acho que temos obrigação. Estou convencida. Por isso eu fiquei muito feliz quando a Academia de Ciências lançou o documento sobre a Amazônia, foi importante. Se não formos nós a fazer este papel, quem vai ser? Não será a mídia, porque ela é bastante cerceada pelos grandes interesses. Não é uma coisa fácil porque a comunidade é muito fechada na sua torre de marfim mas temos que insistir em sua mobilização.

Dentro da própria comunidade científica, quem se expõe acaba sendo alvo de críticas...
Mas não tem problema. Eu enfrento as críticas. Eu consegui fazer uma carta e tive 20 assinaturas de apoio ao Geoma2. A Folha de São Paulo não coloca os nomes, mas estavam lá os Drs. Gilberto Câmara, Luiz Bevilacqua entre outros. Assinaturas de primeira linha para a minha cartinha. Há que continuar insistindo. Fiz para o Ministro Mangabeira Unger dois estudos, um sobre os serviços ambientais e o outro sobre articulação da cidade com a floresta, tema que ele queria abordar e é também o meu projeto do CNPq. Então, pergunto: o que é a floresta hoje? Eu a considero a fronteira do capital natural. Eu sempre estudei a
fronteira em movimento, mas a revolução científica e tecnológica valorizou a natureza como capital natural, não se pode esquecer isso. Então é preciso olhar a natureza agora, o valor que ela tem como capital natural.
O Mangabeira fala: “A Amazônia com mata e a Amazônia sem mata.” E eu queria falar da minha floresta, a fronteira do capital natural, a Amazônia com mata.
O IBGE ofertou-me uns mapas novos que fizeram sobre a vegetação original da Amazônia (acho que em 1500), e a vegetação em 2006. Qual a reação de todo mundo? “Ai, que destruição! Aquele vermelho...”
O meu insight foi outro. É impressionante como o núcleo central da floresta ainda é bastante íntegro. Isso pra mim foi novo, abriu novas possibilidades.
A Rede Geoma é a primeira Rede de Pesquisas do Ministério de Ciência e Tecnologia que integra 6 unidades de pesquisa deste Ministério, sendo três sediadas na região Norte: Instituto Nacional de pesquisa da Amazônia- INPA/AM, Museu Paraense Emilio Goeldi – MPEG/PA e Instituto de Desenvolvimento
Sustentável Mamirauá – IDSM/AM e três no Sudeste: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE, Instituto de Matemática Pura e Aplicada -IMPA e Laboratório Nacional de Computação Científica - LNCC.
Ao invés de ficar chocada com o avanço do desmatamento pensei: “Olha como o núcleo...” Ainda está inteiro. Estou chamando-o de coração florestal. A natureza, a floresta, tem um zoneamento próprio, dela mesma, vocês sabiam disso? Tem o que se chama de mata ombrófila densa, que é esse coração florestal; segue-se a mata ombrófila aberta, ainda tropical, mas, não é densa; e depois matas de transição para o cerrado. O povoamento e a fronteira agropecuária em movimento se deram e estão se dando na mata de transição e na aberta. E parece que o coração florestal quase impediu o avanço da fronteira. Os grandes eixos viários foram abertos no cerrado e na mata aberta, aproveitando as áreas de menor resistência; mesmo a Transamazônica está no contato de mata aberta com mata densa. É impressionante, eu não tinha me dado conta.

Existe ali uma barreira da natureza?
Sim, é uma muralha. E há uma dimensão ideológica muito importante, sabe por quê? Porque não se pode mais falar de uma mata amazônica, uma floresta amazônica vaga. Onde está essa floresta? Onde está a mata? Isto vai discernir a ideologia da ciência. A ideologia que fica dizendo: “Vamos preservar a Amazônia.” Onde está o que deve ser preservado? Parece uma coisa à toa, mas é um insight básico para informar ações necessárias. Por exemplo, preservar, conservar. Hoje, o que tem a ser conservado é o território da mata densa, porque a mata aberta foi bastante destruída, dela permanecendo resquícios.
Isso não significa abandonar o resto ao seu bel prazer. Não, é para conceber estratégias diferenciadas para as diferentes áreas. O coração está aí pedindo urgentemente uma estratégia de defesa que não vai ser, na minha opinião, por áreas protegidas e intocadas, porque isso não vai proteger nada. A defesa deve ser através da produção de produtos não-madeireiros e de serviços ambientais, utilizando-os sem destruir a natureza. Esse coração florestal corresponde ao médio e baixo curso dos afluentes onde domina a circulação fluvial. Os altos cursos estão na mata aberta.
Eu estou fazendo uma consultoria para a Agência Nacional de Águas, que está estudando os afluentes da margem direita do Amazonas e eles estão incorporando essa idéia no projeto.
Mas a Amazônia é sempre tratada como um bloco indiferenciado... Isso está muito errado, ela sempre foi heterogênea. Os ecossistemas são extremamente heterogêneos. E as sociedades, as tribos são diferentes. Mesmo a formação histórica dos diferentes estados. Enquanto no coração florestal deveriam ser implementados os produtos não madeireiros e os serviços ambientais, a mata aberta é o lugar da pecuária e da madeira. Creio que se devia fortalecer a indústria madeireira porque a pecuária já vai bem, obrigada,
cheia de frigoríficos, não precisa de ajudinha não. Mas a madeira é totalmente desperdiçada, e elas andam juntas. A pecuária entra, a exploração da madeira também. Então deve se dar atenção à madeira, à industria florestal.
Agora, o mais importante nesse coração florestal é a borda oriental do bioma Amazônico sul-americano; o pedaço do bioma localizado no Brasil. Olha a importância! Se houver uma estratégia adequada para tratar
essa área, ela pode transmitir para a Amazônia sul-americana.

Que avaliação a senhora faria hoje sobre o ensino de ciências humanas e da Geografia em si? É possível fazer alguma projeção?
Nem sei se houve uma desvalorização, elas nunca foram valorizadas devidamente, vamos dizer a verdade, não é? Eu acho que é um erro enorme porque muita coisa que se comprova na Física, na Matemática. Nas
Ciências Humanas há muito tempo, por exemplo, já se falava no livrearbítrio e no determinismo. Essa é uma questão antiga, e muito depois vieram a leis da probabilidade mostrando a diferença do determinismo e daí
enormes avanços. Mas quando começou? Quando é que veio a Física e colocou essa lei da probabilidade? Foi final do século XIX, passagem para o século XX, quando há séculos se discutia a questão do livre-arbítrio e determinismo. Estou dando este exemplo porque é uma questão crucial humana, discutida historicamente, que passa a ter uma expressão física quantitativa, mas estava aí na cabeça de todo mundo há muito tempo.
Talvez hoje em dia tenhamos que fazer muito mais pesquisa integrada porque os avanços estão vindo muito da convergência tecnológica, da fusão de disciplinas. Por exemplo, na Amazônia há uma falta enorme
de Ciências Humanas. Não falta só Arqueologia e Antropologia; faltam Ciências Sociais, Humanas e Políticas para as cidades, para o consumo, a produção, a indústria, a navegação, o desenvolvimento da região. Não se pode pensar só nos índios e na biologia. Eu defendo a floresta, mas nem por isso vou deixar de ver que tem gente lá.
Fiz um estudo para o Dr. Cylon Gonçalves que era diretor da Secretaria de Programas Especiais do MCT em 2004, afirmando “As Ciências Humanas fazem falta” ele achou que eu tinha toda a razão. Porque se
não pode pensar o desenvolvimento de uma região só em termos físicos, matemáticos ou biológicos.

E quanto às agências de fomento, há possibilidade de se interferir na política de financiamento? Hoje são lançados editais procurando formar redes, mas saem fechados por áreas. 
É, eu sei. Vi, por exemplo, que o pessoal da Amazônia teve uma reação enorme quando começaram a sair esses editais em rede. Acharam que era uma coisa que lhes prejudicava porque eles não têm esse traquejo.
Não esqueçam que a pesquisa na Amazônia é uma pesquisa de inventário, taxonômica. De repente, tem que ter rede...
Li uma porção de textos deles quando fiz o trabalho para o Dr. Cylon. E fiquei boba de ver a reação! Eles se acharam muito prejudicados e acharam difícil organizar uma rede de uma hora para outra. Mas é necessário integrar mais. E vou lhes dizer algo importante: perguntei à FINEP se seria possível fazer um pedido de projeto pensando numa cadeia produtiva. Fulano entra para fazer pesquisa básica, outros para  analisar a produção, o mercado, a circulação, etc. E eles disseram que pode. Acho que seria genial, porque daria uma lógica para a interdisciplinaridade.
Eu, por exemplo, estou lutando e quero estimular a formação de cadeias bioprodutivas. Então vamos arrumar quem pode investigar a produção, o transporte, o processamento. Não posso fazer isso sozinha mas teríamos que conceber algo nesse sentido. E com empresários, sabe? Há que inserir os empresários porque senão a dimensão econômica não se torna viável. Sei que o Laboratório Aché, por exemplo, está tentando desenvolver remédios brasileiros. E a Fiocruz já se instalou em Manaus e o Butantan em Santarém, favorecendo as pesquisas. Bem, eu já falei o que queria. Obrigada.

Fonte: Cadernos de História da Ciência – Instituto Butantan – vol. IV (2) jul-dez 2008

GEOSUL - Entrevista com a professora Bertha Koiffmann Becker


Entrevista realizada dia 19 de julho de 2006, em Florianópolis, que teve a participação dos professores Ewerton Vieira Machado, Sandra M. de A. Furtado e Maria Dolores Buss. Texto revisado e autorizado pela entrevistada (bbecker@acd.ufrj.br).

Geosul - Começamos a entrevista com uma pergunta muito característica: onde nasceu, como era sua família, seus primeiros anos...
Profa. Bertha – Eu nasci lá no samba, no samba me criei e do danado do samba nunca me separei... Bom, nasci na Tijuca, no Rio de Janeiro, em frente à Igreja de São Francisco Xavier, e vivi minha infância nos jardins da igreja; a babá me levava todo o dia. A gente morava em um sobrado e abaixo da minha casa tinha uma vila e eu me dava com as crianças da vila, jogava carrapicho quando as pessoas passavam; adorava pegar a caixinha das alianças na igreja. Fiz o primário no Colégio Sholem Aleichem israelita, até o terceiro ano primário; depois nos mudamos para o Flamengo e aí fui para o Colégio Bennett, e fiquei lá até o fim do ginásio.

Geosul – E seus pais? Em que trabalhavam?
Profa. Bertha – Meus pais foram imigrantes. Meu pai veio em 1914 da Romênia; pressentiu que ia estourar uma guerra e com alguns amigos migrou para o Brasil; os amigos vieram na frente e ele veio depois. Quando chegou passou um dobrado, foi vendedor de porta em porta. Conseguiu acumular alguma coisa e comprou uma fábrica de móveis, lá na Praça Onze. Minha mãe veio da Ucrânia em 1918 com a família, pois a situação lá era muito ruim para os judeus; bandos entravam nas aldeias e matavam muitos judeus. Atravessou o rio Dniester, foi para a Romênia e lá pegou um navio. E veio morar em Niterói. Aqui se conheceram, se casaram, e tiveram três filhas, a Fanny, mais velha, a do meio que não fez geografia e é pedagoga, e eu, a caçula. O meu pai tinha esta fábrica de móveis e minha mãe sempre foi uma ativista social dentro da coletividade judaica; meu pai também ajudava nisto. Naquela época tinha uma grande divisão na coletividade judaica entre os sionistas – aqueles que queriam lutar e ir para Israel – e os progressistas que achavam que tinham que se ajustar à nova terra como é o caso de meus país. Meu pai trabalhava em instituições educacionais e foi um dos fundadores do Instituto Brasileiro de Cultura e Educação, que tem uma escola e um coro com pessoas de diversas idades. Minha mãe era ativista em outro sentido, ajudou a criar muitas instituições como o lar dos velhos, o das mulheres, e principalmente o Lar das Crianças, onde trabalhou a vida inteira, até quando morreu aos 92 anos, e ainda fazia campanha pelo telefone.

Geosul – Nesta época era grande a comunidade judaica?
Profa. Bertha – Não era das maiores. Tinha uma comunidade judaica grande no norte do Brasil, os sefaradi desde o tempo da Inquisição e depois mais recentemente, os que vieram do Egito, do Marrocos. Mas é diferente da dos meus pais que eram asquenazi. Meus filhos fizeram escolas primarias judaicas, mas nenhum deles casou com judeus.

Geosul – E quantos filhos tem?
Profa. Bertha –Tenho três filhos, duas mulheres e um homem. E oito netos.

Geosul – E o ginásio onde fez?
Profa. Bertha – Ginásio no Bennet e no Andrews o curso clássico. E de lá fui para a geografia.

Geosul - Que ano entrou na geografia? E o que lhe marcou na faculdade?
Profa. Bertha – Entrei no curso, que na época era Geografia e História em 1948 e passei em primeiro lugar. Era na Faculdade de Filosofia que ficava na Casa de Itália, prédio que tinha sido confiscado pelo Brasil na guerra. Lembro do Hilgard Sternberg que na época me convidou para ser sua auxiliar de ensino. Lembro que tive poucas aulas, mas brilhantes, com o Josué de Castro, antes dele sumir. E do Arthur Ramos, que era um grande antropólogo.

Geosul – Por que escolheu a Geografia?
Profa. Bertha – Eu sinto que herdei esta coisa da fronteira, de descobrir o mundo dos meus pais. A travessia. Por isso que estudo fronteira até hoje. A nossa Páscoa, que em geral coincide com a Páscoa cristã, em hebraico tem o nome de Pesach que significa travessia; era a libertação dos escravos egípcios; é a festa mais bonita dos judeus. Pesach cada um traduz como quer, mas eu acho que é travessia; a saída do Egito, a travessia do deserto para chegar na Terra Santa. Então a fronteira para mim é muito importante, vivida. Estudo fronteira desde os anos 60. Estudei e escrevi a organização da pecuária, o gado tomando áreas de mata, que foi uma revolução, já que antes sempre ficava no campo, ou na caatinga. Comecei a pesquisa, quando o gado começou a ocupar áreas de mata. Eu ia para o campo – e sempre fiz pesquisa de campo, é uma característica da minha formação; sempre procuro ligar teoria e prática, ainda mais em um país como Brasil, onde as coisas mudam do dia para a noite – querendo entender o sistema de abastecimento do Rio de Janeiro, que eu achava que estava mudando. Fui para Minas Gerais, até Montes Claros, onde o gado estava ocupando as áreas de mata. Depois fui para o Triângulo Mineiro aonde na época já fazendeiros, iam de avião abrir a mata em Crixás, Goiás. De lá fui para o oeste de São Paulo, vi a nova organização da pecuária. Juscelino com estradas e a industrialização permitiu que; os matadouros se transformassem em frigoríficos e a pecuária começou a avançar. Então peguei a fronteira no início. Depois fui para a Amazônia. E a Amazônia entrou na vida também porque durante dez anos, de 1966 a 1976, dei aulas no Instituto Rio Branco, para os futuros diplomatas brasileiros.

Geosul – E nesta época já era professora da UFRJ?
Profa. Bertha - Eu pulei um pouco. Vamos voltar. Eu entrei como auxiliar de ensino em 1958. Dei aulas de muita coisa, aprendi muito da física e da humana. A Maria do Carmo Galvão era assistente do Hilgard e eu era auxiliar de ensino. Em 66 o Arthur Weiss que era o professor de geografia do Rio Branco, faleceu e pediram um outro professor de geografia. A Maria do Carmo não se interessou e eu me interessei; também pelo dinheiro, porque na época resolvi fazer psicoanálise, já que me sentia muito tolhida e não ia pedir dinheiro para o marido. E resolvi aceitar. Se até hoje, com 75 anos, vou para todos os lugares e faço tanta coisa que jovem não faz, imagina na época. Fiquei atuando nas duas instituições até o Instituto Rio Branco mudar para Brasília.

Geosul - E trabalhou também na Fundação Getúlio Vargas?
Profa. Bertha – Lá dei alguns cursos. Mas quero voltar ao Instituto Rio Branco, que tinha um programa imenso de geografia, uma loucura. Pensei: vou ter que mudar; procurar alguma coisa interessante para esses futuros diplomatas! E descobri a Geografia Política, que naquela época estava muito escondida. E nunca mais deixei a Geografia Política. E eu sempre falava para o embaixador, que era o chefe, que deveria levar os alunos para conhecer o Brasil, pois eles eram oriundos das metrópoles. E acho que foi em 1972, que se criou o Projeto Cisne. Havia um avião da FAB a nossa disposição, uma representante do Itamaraty, e fomos primeiro recebidos em Corumbá, em Cáceres. Preparei os alunos com a teoria centro-periferia, do John Friedmann e apliquei para a América Latina. E foi um barato! Paramos no Forte Príncipe da Beira, em Guajará Mirim, em Cruzeiro do Sul; apaixonei-me pela Amazônia e nunca mais a larguei. E em 1971, foi criado o curso de Pós-graduação em Geografia na UFRJ. E eu não possuía título nenhum, pois sempre pude autodidata, tinha só especialização em didática; nunca tinha podido estudar fora, pois era casada. E apareceu uma chance no Instituto de Geociências para favorecer a geologia, o concurso para Livre-Docente. E resolvi fazer. Quando descobri tinha três meses para fazer a tese. Conversei muito com a Lísia Bernardes e resolvi juntar o que sabia sobre pecuária, com uma área que estava em crise com o café, que era o Espírito Santo. E fui para lá com uma caminhonete da universidade e duas alunas. O Instituto Café fazia a erradicação do café e eles me ajudaram com carro inclusive, pois o da universidade tinha quebrado. Fiz a pesquisa no Município de Pancas, e o trabalho foi publicado na Revista Brasileira de Geografia: O norte do Espírito Santo – região periférica em transformação, em 1970. Então fiz a tese de livre-docência em três meses.

Geosul - E quem foi a banca?
Profa. Bertha - Uma banca de peso: Dr. Fábio Macedo Soares Guimarães, Dr. Otto Henry Leonardos, Nilo Bernardes, Pedro Geiger. Era um exame medieval: prova de títulos, aula, trabalho escrito, e defesa pública.

Geosul – Falou antes na Lísia Bernardes, e que outros geógrafos tinham influência na época na UFRJ?
Profa. Bertha – Orlando Valverde, que faleceu há pouco, Pedro Geiger, minha irmã Fanny, Faisol; o Milton chegou depois.

Geosul – Conte um pouco sobre a sua participação na AGB e na UGI.
Profa. Bertha – Participei da AGB em Montes Claros; mas tive filhos e fui a poucos encontros. Depois me desliguei um pouco, mas quando me convidavam ia. Fui a Salvador e Belém. Depois a AGB ficou ultra-sectária e não convidava mais a gente. Na reunião deste ano, em Rio Branco, me convidaram, com o Carlos Walter, para fazer a palestra de abertura. Na verdade atualmente não tenho mais muita paciência para congressos. Quanto a UGI: eu freqüentava a UGI; fui a um congresso na Índia que tinha uma Comissão de Desenvolvimento Regional com um monte de gente importante, como o Brian Berry. O Itamaraty me deu a passagem e fui. E me tornei secretária desta comissão, cujo presidente era o Nilo Bernardes. Fui à URSS; fiz um trabalho no Japão; conheci um monte de gente. Na reunião de Viena, eles queriam que eu fosse presidente da Comissão, mas recusei. Era muito trabalho chato: fazer contatos, escrever para um monte de gente; e eu escrevo tudo à mão! Quando eu ia aprender a lidar com computador, meu marido ficou doente por sete anos. Uma tragédia. Depois que ele faleceu, entrei em um ritmo de vida, que não há espaço para apreender computador. Mas eu ainda queria dizer que acabei sendo eleita uma das vice-presidentes da UGI por quatro anos. A Anne Buttimer trabalhava comigo. E eu não quis mais, devido à politicagem. Depois fiquei totalmente absorvida com o Brasil.

Geosul – Como avalia hoje as transformações que aconteceram na Amazônia na sua inserção à vida nacional e nas relações do Brasil com o mundo?
Profa. Bertha – Quando entrei no Itamaraty era o tempo da “integração nacional”. Lancei o livro Geopolítica da Amazônia, em 1982 numa reunião da UGI, no Rio de Janeiro, em que eu era secretária científica; fiz o programa daquele evento, que foi elogiado internacionalmente. Este é um livro de crítica às estratégias políticas, pois tinha a luta pela terra, os conflitos com os fazendeiros. Analisei por muito tempo a expansão da fronteira, no período do programa de integração nacional, em que estenderam as estradas, incentivos fiscais, e havia também a preocupação com as guerrilhas, como a Guerrilha do Araguaia. Às vezes eu dou uma de boba sem saber: desenvolvi uma logística de campo com carros de DNER e ficava nos alojamentos para os engenheiros; e lá ia eu pelas estradas afora, com minhas alunas, como a Lia, a Maria Helena, Xingoara com carro do DNER. Depois fui saber que o DNER ajudou a polícia a desbaratar a Guerrilha do Araguaia, por lá. E era lá que a gente ia! Então estudei muito os conflitos, as estratégias, os processos de colonização, os posseiros, a abertura da Transamazônia: acompanhamos isso passo a passo. Lancei a idéia que acho importante até hoje, Amazônia como floresta urbanizada. Não é que ela seja urbana, mas é no sentido na concentração da população que é mobilizada a partir dos núcleos urbanos de vários tamanhos, para tarefas urbanas e abertura das frentes, configurando intensa mobilidade da população e conflitos. Estudei isso por toda a década de 70, e saiu o livro em 1982. Na década de 1980 a criação do Conselho de Seringueiros foi simbólica. E todos os movimentos sociais na Amazônia, ou quase todos, tiveram como base a Igreja Católica. Foi ela quem organizou, ensinou. E lá no Acre a Igreja se juntou com os sindicatos. A resistência teve Chico Mendes como símbolo, mas em vários lugares a igreja organizou a população e teve um papel fundamental. Por outro lado, ela introduziu a idéia de propriedade da terra que não existia; todos os caboclos eram isolados, se juntavam de vez em quando para festejos de santos, mas não tinham a noção de comunidade, nem da propriedade privada. E acho isso complicado porque ter só a terra não adianta nada. Mas eu penso isso hoje, porque na época achava justo, para melhorar as condições do povo. Se você tem só a terra sem o resto, não adianta nada. A resistência social, muito justa, foi cooptada pela ideologia ambientalista, que entrou pesado. Coincidiu a resistência social com a crise do Estado brasileiro, devido aos choques do petróleo e a dívida externa, isto é, com a fragilização do Estado, e a pressão internacional pelo ambientalismo. Juntou tudo isso na década de 80 e aí criaram o Conselho Nacional dos Seringueiros que foi um marco! Isto está em outro livro. A pressão ambientalista nacional e internacional tornou-se muito forte na Amazônia: em 1989 foi criado o Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais Brasileiras, pela União Européia, o G7 com a gestão do Banco Mundial. Por isso todo mundo chama de PPG7. E era dinheiro para preservação, isto é: não tocar! Tinha um grupo internacional de acompanhamento do programa, e eu fui indicada pelo Brasil para acompanhar esse programa, em 1993. Então participei desde o seu lançamento, de 1993 até 2004; fiquei onze anos neste grupo internacional, guerreando com o Banco Mundial e as pressões internacionais. É bom que se diga porque cada um tem suas guerras. A minha grande guerra foi esta! Para não ficar só na preservação! Só se pensava nas árvores, queriam transformar a Amazônia em um museu, tinha que se pensar também na população. A gente tinha que ficar de olho aberto! Claro que não era eu sozinha, o coordenador era o Seixas Lourenço e o Wanderlei Messias, da USP, trabalhava com ele. Depois saiu o Seixas Lourenço quando mudou o governo e entrou a Mary Helena Alegretti. Ela foi guru do Chico Mendes, é muito inteligente e fez uma boa coordenação. Fiz consultorias para ela, e fui entendendo mais as coisas. Eu sempre fui contra o preservacionismo, e tenho muitas coisas escritas dando a minha interpretação geopolítica. O ambientalismo tem duas raízes: uma legítima, de preocupação com a vida; mas tem outra que segue a lógica da acumulação, para quem a natureza tornou-se um bem escasso. E por acaso convergiram para o projeto conservacionista por objetivos completamente diferentes. Então as Unidades de Conservação tanto eram para proteger mesmo, como para reserva de valor, para uso futuro na lógica da acumulação. Desenvolvi muito isto, tanto em artigos como em livros. A minha guerra com o Banco Mundial, no PPG7, era muito neste sentido. Para mim a Amazônia é um dos três eldorados naturais contemporâneos: a Antártida dividida entre as potencias, os fundos marinhos, não regulamentados juridicamente ainda, e, a Amazônia Sul-americana, o único eldorado sob soberania de Estados. Por isso me chamam de desenvolvimentista. Pois quer saber: eu quero mesmo é o desenvolvimento! Não o desenvolvimento que destrua a natureza, mas um desenvolvimento que consiga melhorar as condições da população brasileira. Pois no momento acho que o maior problema do Brasil é a exclusão social. Ainda bem que o Brasil tem um território grande porque se não já tinha explodido há muito tempo. A fronteira tem sido usada muito como válvula de escape.

Geosul – Tem um artigo do Washington Novaes para o Jornal o Estado de São Paulo em 2005 em que ele reproduz um trecho seu que é: “a floresta só deixará de ser destruída se tiver valor econômico para competir com a madeira, a pecuária e a soja”. Gostaríamos que comentasse um pouco isso.
Profa. Bertha - Mas espera aí, vocês não querem saber a história toda? Em todas essas brigas no PPG7 nós conseguimos mudanças e também nestes anos, o mundo mudou: a lógica da acumulação está cada vez mais forte, com a globalização, em vez da lógica civilizatória, cultural, social. Agora eles querem usar as reservas de valor. Mercantilização da natureza! Vou falar isto um pouco amanhã na SBPC. Você vê os impactos contraditórios da globalização para a Amazônia: por um lado, mercado de proteínas, da soja, do gado. O Brasil é o maior exportador de carne, mas vem a guerra da aftosa, porque sempre tem uma pressão internacional. A soja e o gado entrando na floresta; desterritorialização, mortes, assassinatos, tentativas de abrir a BR 163 como um modelo diferente de estrada. Por outro lado, as reservas de valor da década de 90 começam a serem utilizadas: mercantilização do ar, da vida, da água. Protocolo de Kioto é o mercado do ar. Falei isto agora na semana passada para os religiosos na Amazônia (Encontro: Amazonas, fonte de vida): os senhores, hoje de manhã, foram excelentes nas suas posições sobre moral e ética, mas acho que deveriam se preocupar um pouco com a mercantilização da natureza. Sou abusada! Falam tanto em ética, moral... E até hoje não vi um tostão deste escambo. Estou vendo que o ambientalismo se esgota. As unidades de conservação não estão conseguindo frear a expansão do gado e da soja. Invadem, destroem, matam. A Irmã Doroty foi uma; mas matam milhões lá na BR163. E depois a Amazônia mudou, não é mais a mesma de 1960, quando começou a Programa de Integração Nacional. A sociedade não fica congelada. Hoje a sociedade tem demandas. Houve mudanças estruturais fantásticas na Amazônia. Na estrutura da economia: a Zona Franca de Manaus, a extração mineral,... Você sabe que o Estado do Amazonas teve o terceiro ou quarto PIB do Brasil! Mas há problemas! Não cresce sem problemas. Agora tem os royalties e deve se usá-los adequadamente. Mudou a conectividade pelas telecomunicações, favorecendo a entrada da ideologia ambiental pelas relações locais e globais. A Igreja perdeu lugar para as ONGs. Agora para as evangélicas. Chego à conclusão que o ambientalismo não está conseguindo conter o gado, nem está conseguindo atender as demandas da população, que se organizou em movimentos; só os índios têm quantas associações? A organização da sociedade civil foi inovadora e intensa.

Geosul – E o SIVAM vai mesmo funcionar?
Profa. Bertha – Até agora não mostrou direito a que veio. Na verdade, eu sei: o SIVAM/ SIPAM veio como resposta do Brasil às tentativas de interferências no território. O Brasil é todo cercado de bases americanas, desde a América Central até o Paraguai. E a Colômbia é a maior expressão deste movimento de militarização. Mas uma vez em Tabatinga – faço conferências para a CNBB, para os militares, acho que é o meu papel como cidadã – eu estava falando para um coronel e disse que achava que havia uma militarização e o Brasil estava virando uma ilha cercada de bases militares. E ele disse que eu tinha razão, mas que o correto não era chamar de militarização, que é um movimento interno, quando os militares sobem ao poder; o que está havendo não era isso, mas sim uma presença militar, pois é externa. Agora estou preocupada em soluções alternativas, estou farta de denunciar. É urgente encontrar caminhos, senão vão arrebentar a floresta. Tem que atender as demandas da população, como trabalho e renda. O que adianta fazer um monte de unidades, que não barram a soja, a extração de madeira, e nem dão trabalho para a população? Tem que haver crescimento econômico com inclusão social sem destruir a natureza. Então falei isso: enquanto não atribuir valor às florestas, não vão competir com as commodities. Compatibizar e não polarizar desenvolvimento e conservação é o grande desafio que se coloca para a ciência e a tecnologia.

Geosul – E como se faria isso?
Profa. Bertha – Eu já pensei um monte de coisas, mas também vocês querem a receita toda! Tão querendo tudo! Eu não perco o meu bom humor! Mas voltando ao sério. Eu coloquei esta tese: enquanto você não atribuir valor para a floresta, ela não vai competir com as commodities, com a madeira, com a soja e com o gado. Agora os ministérios me chamam muito; nem tanto o Ministério do Meio Ambiente, embora a ministra Marina Silva e o Senador Sibá Machado dizem ouvir o que digo. Trabalhei no Plano da Amazônia Sustentável (PAS) que fizemos há três anos atrás, e que o governo engavetou. Trabalhei durante um ano no Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável da BR163, Cuiabá-Santarém. E o MCT me convidou para fazer um estudo incluindo uma proposta de política de ciência e tecnologia. Propondo que a Amazônia precisa de uma revolução científico-tecnológica. O Brasil já fez várias, como a exploração de petróleo em águas profundas, transformação da cana em álcool combustível, uso do cerrado para soja. O que era o cerrado? Gado pé duro! A EMBRAPA foi fundamental. O pessoal fala muito mal da EMBRAPA, mas ela mudou muito, e está fazendo um excelente trabalho de pesquisa para o produtor familiar! Fui para o campo, falei com muitas pessoas, desde empresários a cientistas e propus isto: a valorização da floresta através do uso da biodiversidade em cadeias técno-produtivas, desde a floresta até chegar à indústria na cidade. Agora na palestra de abertura da AGB, no Acre, falei sobre isto, e o Carlos Walter me disse: você deve falar sócio-tecno-produtivas. Que seja! É isto que o Washington Novaes comentou.
Geosul – Atribuiria isso como as resignificações para as políticas públicas na Amazônia?
Profa. Bertha – Sem dúvida. Eu lembro três estratégias: não se pode fazer assentamentos, modelito do INCRA da década de 70, jogar a população no meio do mato e dar 100 hectares tendo que preservar 80 e usar 20, sem tecnologia, longe do mercado e das estradas. Como uma população pode fazer isto? Sabe qual foi o índice de evasão dos assentamentos em torno de Santarém? 70%! Preciso de outro índice? Então tem que ter escala mínima de produção e logística adequada. O grande problema da Amazônia é a logística, mas não igual a das outras regiões. A revolução científico-tecnológica tem que pensar em isto tudo. Não é uma revolução positivista. Há que fazer mudanças no quadro institucional, que é uma das coisas mais difíceis hoje, bem como regionalização. Não pode pegar a Amazônia inteira e trabalhar como se fosse uma coisa só. Estou dando a vocês elementos dos meus modelos.

Geosul – Então dentro desta linha, o seu conceito das três macrorregiões amazônicas foi incorporado no PAS. Poderia falar um pouco mais sobre isto?
Profa. Bertha – É verdade. Em 1998 a Mary Alegretti, coordenadora da Secretaria da Amazônia, me pediu para fazer um cenário sobre a Amazônia. Espremi a cabeça, fiz uma reflexão, não sou muito de números e reconheço que é um ponto falho, mas faço minhas reflexões. Então pensei como o povoamento da Amazônia, a conectividade, a estrutura econômica, a sociedade mudou o território! Ela não é toda igual. Então identifiquei três regiões na Amazônia. Uma que todos chamam arco de desmatamento, e que chamei de arco de povoamento em consolidação. Não se pode dizer que toda a área da soja, mesmo aquela da Belém-Brasília que já foi desmatada, que tem Carajás pecuária, indústria de couro, ainda seja chamada de arco de desmatamento. Na borda ainda há desmatamento, mas no resto não. A outra é a Amazônia que chamei de central, ou oriental, que para mim era a região mais vulnerável porque ali iam passar estradas, e foi justamente o que aconteceu com a BR 163. E a Amazônia Ocidental que é a mais preservada, pois não passam estradas. Mas por que fiz isto? Para cada uma fazer um balanço entre vulnerabilidades e potencialidades que deveria embasar as políticas públicas. Então, no arco de povoamento em consolidação, qual é a política? A política ali é consolidar o povoamento. Na região mais vulnerável a política sugerida era fortalecer a conservação; falei isto há quase 10 anos. E olha o que aconteceu! E na Amazônia ocidental, mais preservada, é onde se tem as condições para o desenvolvimento sustentável. E infelizmente falei certo, porque acabou arrebentando tudo na área mais vulnerável.

Geosul – E por curiosidade, como é a questão da droga na Amazônia?
Profa. Bertha – Isto vocês devem perguntar a Lia Osório, é ela que vem estudando isto. A droga encontra na Amazônia muito espaço. O povo não tem trabalho e são presas fáceis da droga. Em Tabatinga não tem uma família que não tenha um membro metido nas drogas. Começa por aí. O Brasil é passagem. Mas tem o Projeto Cobra da Polícia Federal que é muito atuante.
Geosul – Como vê as pós-graduações no Brasil, já tendo sido presidente da ANPEGE?
Profa. Bertha – Não pergunte isto. Acho que o grande problema hoje é o individualismo. Estou falando na minha universidade. Quanto à ANPEGE, na época não pude me dedicar muito. Mas fiz um encontro interessante lá no Rio e depois pegaram o material e publicaram sem o meu nome. O Milton até ficou danado! Mas antes disto tinha feito uma reunião da UGI que foi um excelente. Publiquei em livro: A geografia política e o desenvolvimento sustentável, ed. UFRJ.

Geosul – Gostaríamos que contasse um pouco de sua experiência com outros geógrafos brasileiros.
Profa. Bertha – Sempre me dei muito bem com o pessoal do IBGE, da USP, de Minas Gerais, Manoel Corrêa, com o Carlos Augusto e muitos outros. Mas é claro que vocês querem saber do Milton Santos. Nós dois éramos os mais cordiais inimigos. Quando ele chegou ninguém o queria nos cursos, diziam que era muito complicado. Eu bati pé e convidamos o Milton e também o Maurício Abreu, porque inauguramos a pós-graduação na, UFRJ e precisávamos de doutores e Milton era um expoente. Tive a maior boa vontade e vim a gostar muito dele. Se estivéssemos sozinhos, a gente se dava bem, e trocava, mesmo confidências, mas em público...

Geosul – Devido ao adiantado da hora e seus compromissos amanhã na 58ª. SBPC, a gente encerra a entrevista agradecendo muitíssimo.